Construindo a carreira: uma vida dedicada ao Direito.

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A civilização do espetáculo

O Festival de Cannes fez uma aposta alta em Maio de 2015: em vez de abrir com uma produção internacional aguardada pela mídia, escolheu um filme da casa, um francês nada comercial. "La Tête Haute"(De Cabeça Erguida) segue dos 6 aos 16 anos, Malony, um pequeno delinquente ultraviolento que vive brigando com a mãe e sobrevive de golpes como roubos de carro. O menino, vivido pelo estreante Rod Paradot, tem uma presença impressionante, com o rosto sempre duro e um olhar amargo. A juíza que cuida do seu caso é vivida pela estrela Catherine Deneuve ("A Bela da Tarde"). Mas ter Deneuve em Cannes é um pouco como ver Susana Vieira na Sapucaí, não chega a ser nenhuma novidade, e não empolgou a imprensa. A final, ela vem atravessando o célebre tapete vermelho desde 1960.

 

Os jornalistas não demonstraram interesse na longa e respeitável carreira de Deneuve, mas sim em seu semblante. Teria ela se submetido a cirurgias plásticas ou botox? Estaria um tanto quanto obesa para os padrões estéticos atuais? O motivo de maior irritação da mídia francesa era o fato de que um dos maiores símbolos da sétima arte se rendeu à mesquinha ditadura da beleza imposta por padrões hollywoodianos. Que lástima! Talvez tudo isso não seja uma grande surpresa, considerando que a atriz não é lá muito fã do atual "mundo das celebridades". Estrela de grandes clássicos, de Buñuel a Polanski, Deneuve, hoje com 71 anos, crê que não há mais espaço para as grandes estrelas de cinema hoje em dia. "Poderíamos ter estrelas, mas esse mundo ultramidiático e as redes sociais hoje nos impedem. A sua vida pessoal está exposta o tempo todo. Ser estrela requer glamour e também um pouco de segredo. Mas sim, ainda podemos ter algumas por aí", declarou.

 

A certeira declaração da atriz, fez-me voltar as atenções para uma obra que li há poucos meses: “A Civilização do Espetáculo”, do peruano Mario Vargas Llosa (Editora Objetiva, 2012). De acordo com o vencedor do premio Nobel de literatura de 2010, a raiz do fenômeno está na cultura, ou melhor, na banalização lúdica da cultura imperante, em que o valor supremo é agora divertir-se e divertir, acima de qualquer outra forma de conhecimento ou ideal. As pessoas abrem um jornal, vão ao cinema, ligam a tevê ou compram um livro para se entreter, no sentido mais ligeiro da palavra, não para martirizar o cérebro com preocupações, problemas e dúvidas. Só para distrair-se, esquecer-se das coisas sérias, profundas, inquietantes, difíceis e entregar-se a um devaneio ligeiro, ameno, superficial, alegre e sinceramente estúpido. E haverá algo mais divertido que espiar a intimidade do próximo?

 

Na civilização do espetáculo, explica Vargas Llosa, ideias e ideais, debates intelectuais e programas são substituídos por publicidade e aparência. Consequentemente, a popularidade e o sucesso são conquistados não tanto pela inteligência e mérito, quanto pela visibilidade e talento histriônico. O jornalismo escandaloso é um perverso enteado da cultura de liberdade. Não pode ser suprimido sem que se inflija ferimento mortal à liberdade de expressão. Como o remédio seria pior que a doença, precisamos suportá-lo. Não chegamos a esta situação em virtude de maquinações de donos de jornais e canais de televisão que, ávidos por dinheiro, exploram com total irresponsabilidade as paixões baixas das pessoas. Essa é a consequência, não causa. De fato, a imprensa sensacionalista não corrompe ninguém; nasce corrompida por uma cultura que, em vez de rejeitar as grosseiras intromissões na vida privada das pessoas, as reivindica, pois esse passatempo, farejar a imundice alheia, torna mais tolerável a vida a jornada do funcionário pontual, do profissional entediado e da dona de casa cansada.

 

Esse “bafafá” da premiação de Cannes me remeteu ao Oscar de 2015, no qual Patricia Arquette - vencedora da categoria de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme Boyhood -, aproveitou o momento glorioso de seu discurso para falar sobre igualdade salarial e direitos das mulheres. O que me chamou a atenção foi o fato da atriz ter declarado que, antes do Oscar, fez um trabalho voluntário ao invés de ir a manicure. Também não aderiu a nenhum estilista famoso e promoveu um boicote às entrevistas que apenas visam satisfazer à necessidade do público conhecer a grife dos vestidos e joias utilizadas pelas atrizes, em detrimento do conteúdo dos filmes e do significado dos papéis desempenhados.

 

Tudo isso me traz uma nostalgia dos tempos em que a arte se desdobrava em novas expressões artísticas! Há 25 anos, Alceu Valença se inspirou na inesquecível personagem de Catherine Deneuve para compor uma bela letra e melodia: Eu lembro da moça bonita da praia de Boa Viagem. E a moça no meio da tarde de um domingo azul. Azul era a Belle de Jour. Era a bela da tarde seus olhos azuis como a tarde. Na tarde de um domingo azul: La Belle de Jour!

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