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A dignidade na morte

Na sexta-feira, palestrei sobre as Diretivas Antecipadas de Vontade. Enquanto ajustava os slides do PowerPoint, o pensamento voava e recuperava as imagens da delicada pintura de Edvard Munch: “Morte no Ambulatório”. Notabilizado pelo quadro "O Grito", o pintor tem uma obra extensa e muito dela retrata os seus dramas internos, nos quais convivem a fragilidade da vida, solidão e melancolia.


As doenças moldaram a maneira de Munch (1863-1944) ver o mundo e, obviamente, influenciaram a evolução artística do pintor norueguês. Porém, de todas as doenças com as quais conviveu, nitidamente a mais marcante foi a tuberculose que ceifou a vida de sua irmã Sophie, em 1877, quando ela tinha apenas 15 anos. O fato em si já é dramático para qualquer pessoa, mas, no caso de Munch, havia um precedente: sua mãe fora vítima da mesma doença quando ele tinha cinco anos de idade. O jovem artista percebeu então quão íntima e devastadora era a experiência da morte.


Em "Morte no Ambulatório", a paciente desenganada e às portas da morte está sentada na cadeira de vime, cujo espaldar alto, junto com o travesseiro, impede que ela seja identificada. As pessoas expressam dor e sofrimento por uma palidez esverdeada que visceralmente as congrega com a doença que aniquila a pessoa amada. A atitude contemplativa e respeitosa do médico denota que ele perdeu as esperanças, apenas medita. Munch é aquele personagem mais isolado no canto esquerdo. Está virado de costas para a paciente, como a renegar a tragédia que se faz presente. Não encontra consolo na família, pois parece ter a sensação de que nada poderá servir de lenitivo diante de dor tão extrema.


Atualmente a experiência da espera da morte é um fato raro. Quando a doença cronifica de forma grave e irreversível, em uma espécie de acordo tácito, familiares e médicos escamoteiam o inevitável. A heteronomia se manifesta pela reanimação, intubação, traqueostomia, ventilação, diálise e técnicas experimentais que desafiam em vão o “inimigo que não pode ser vencido”. Ao invés de um desfecho sereno, procedimentos fúteis e desproporcionais acarretam um processo de passamento penoso e indigno. Mais que uma distanásia: uma mistanásia em um leito isolado de um CTI.

 
Como recuperar a naturalidade da vivência da morte? Se o paciente terminal estiver consciente poderá se valer do consentimento informado (art. 15, CC) para expressar os seus desejos e crenças sobre o decesso que reflita o seu estilo de vida, o ideal de “morte boa”. Suspensão de esforços terapêuticos e cuidados paliativos normalmente protagonizam o rol de cuidados e tratamentos que a pessoa almeja receber para humanizar o fim da vida.


Porém, nem sempre a ortotanásia se viabiliza. O habitual é que o doente incurável sequer possa se manifestar, pois privado de consciência, eventualmente em estado vegetativo persistente. Daí o mérito das Diretivas Antecipadas de Vontade (Resolução CFM 1995/12). Seja pela possibilidade de enunciarmos declarações prévias ou nomearmos um procurador para cuidados com a saúde, é libertador contarmos com um instrumento de autonomia prospectiva, pelo qual hoje expressaremos validamente as nossas determinações sobre os cuidados desejados, com a segurança de que serão respeitadas pelo médico e familiares, na eventualidade de algum dia estarmos silentes quando a morte irromper.

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