Construindo a carreira: uma vida dedicada ao Direito.

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Os 50 Tons do Poliamor

 

O mundo atual é uma peça publicitária que nos convida a construir a própria trajetória. A vida como uma folha em branco, a ser livremente desenhada, conforme os volúveis desejos e crenças de cada qual. Sejamos protagonistas de nossas hedonistas biografias!

 

No supermercado de tendências pós-modernas se destaca o Poliamor. Concisamente, envolve a prática de mais de um relacionamento íntimo simultâneo, com o conhecimento e consentimento de todos os envolvidos. Apela-se ao consensual, ético, responsável e não-monogâmico. No paralelismo afetivo não há exclusividade, legitimam-se as uniões estáveis dúplices. O psicanalista Charles Melman toca no ponto: esse convite para tratar objetos de consumo como objetos renováveis descartáveis, leva forçosamente à transformação de nossas relações interpessoais, inclusive de nossas relações conjugais. Tornou-se culturalmente aceito o fato de alguém poder ser tratado como um objeto descartável depois de ter sido utilizado.

 

Seria essa inflação de egos travestida em “vivência de afetos” que deveríamos conceituar como a tão sonhada autonomia dos modernos? Ou seja, a autodeterminação para (re)inventarmos a intersubjetividade a cada click? Pessoalmente, não creio que a ideia de liberdade se circunscreva à submissão à transitoriedade do desejo. São os limites que nos humanizam, e não o desejo sem limites. Os verdadeiros laços emocionais envolvem ciúme, sofrimento, renúncia, abdicação e grande dispêndio de tempo, cuidado e energia. Porém, se o poliamoroso sucumbe apenas ao seu espelho, é melhor diluir a vida em um tratado de breves e assépticas experiências amorosas, de preferência, concomitantes.

 

O fato é que a autonomia secularizada degenerou em um individualismo sem precedentes. Nada mais transcende: República, Religião, Família. Um a um foram desmoronando os castelos que permitiam ao homem reverenciar fins alheios e podar os excessos, ou seja, “ficar na casinha”. Agora, devidamente instalados em seus umbigos, nossos contemporâneos fraturam a vida familiar e o modelo “careta” da monogamia, infiltrando o gozo narcísico pela amplíssima porta da Principiologia Constitucional, através da via jurídica do modelo das famílias simultâneas.

 

Porém, subjacente ao imaginário de comercial de margarina, crianças se perdem e referências se dissolvem, enquanto o ordenamento jurídico homenageia o pluralismo dos ideais de vida boa, em detrimento da virtuosidade das boas escolhas morais. Todos velejam no oceano de direitos, mas ninguém se responsabiliza pelas consequências de suas escolhas afetivas. Como espritdutemps, parte da doutrina civilista criticou como “conservadora” uma decisão do STJ que considerou “que uma sociedade que apresenta como elemento estrutural a monogamia não pode atenuar o dever de fidelidade, que integra o conceito de lealdade, para o fim de inserir, no âmbito do Direito de Família, relações afetivas paralelas”(Rel. Min. Nancy Andrighi, 3.T, Informativo 435, 21.5.2010).

 

O cerne da autonomia está na contenção, na restrição ao prazer pelo câmbio da satisfação imediata pela satisfação adiada. Segundo Freud, a história do homem é a historia de sua repressão, pois se o indivíduo ficasse entregue aos seus instintos, regressaria à barbárie, à horda primitiva. Valemo-nos, pois, da capacidade de resistirmos ao apelo contingente do desejo, equivocadamente entronizado na condição de direito fundamental por parte dos que interpretam o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana como uma cláusula geral de acesso à miséria do relativismo moral.

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