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De Di Cavalcanti a Cristiano Araújo: a espetacularização da morte

Cena 1: 26 de outubro de 1976. Ao saber da morte do pintor Di Cavalcanti, o cineasta Glauber Rocha despenca para o funeral, com a câmera na mão e o intuito de homenagear o velho amigo. O registro virou o curta “Di-Glauber” que, lamentavelmente, poucos brasileiros puderam assistir. Logo após a primeira sessão, a filha do pintor, Elizabeth Di Cavalcanti, iniciou uma batalha jurídica para proibi-lo. Em 1979, a 7ª Vara Cível concedeu liminar a um mandado de segurança impetrado por Elizabeth, vetando a exibição do filme. A decisão vale até hoje. O filme pode ser encontrado na internet, mas jamais fez carreira no cinema. Segundo a família, na década de 70, num encontro em Paris, Di e Glauber teriam feito um acordo. Di pintaria Glauber e seria filmado pelo cineasta. Ironicamente, Glauber teria perguntado a Di se queria ser filmado “vivo ou morto”. Quando soube da morte do amigo, o cineasta resolveu registrar as últimas imagens do artista plástico. O filme ganhou o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cannes, em 1977, antes que a Justiça proibisse a exibição em território nacional. A filha de Di considerou a obra desrespeitosa, por mostrar o pai morto. Na época, Glauber se justificou dizendo que "filmar meu amigo Di morto é um ato de humor modernista-surrealista que se permite entre artistas renascentes: Fênix/Di nunca morreu. No caso o filme é uma celebração que liberta o morto de sua hipócrita-trágica condição".

 

A censura ao documentário-arte filmado por Glauber Rocha sobre a morte de Di Cavalcanti (1897-1976) foi uma lástima (com a recente decisão do STF quanto a interpretação conforme a CF dos artigos 20 e 21 do Código Civil, o documentário poderá circular livremente). O cineasta homenageou um amigo filmando o velório e enterro do pintor modernista. Glauber editou uma profusão de imagens, sons e falas variadas, reunidas sob uma trilha sonora avessa ao ritual fúnebre: Pixinguinha, Paulinho da Viola, Jorge Ben e até o sambinha de Lamartine Babo, “O Teu Cabelo Não Nega...” o filme evoca a obra de Di Cavalcanti alternada com cenas do velório no Museu de Arte Moderna (MAM) e do sepultamento no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. Contestador, Glauber subverteu um pequeno enterro de um grande homem num filme original e numa homenagem imortal. É bem verdade que Glauber provocou um alvoroço no velório de Di Cavalcanti. Pedia para as pessoas olharem para a câmera e foi um pouco desrespeitoso como informam os jornais da época. Mas, no filme, ele mesmo explicava que Di teria pedido para ele ir filmá-lo e que, por inúmeras razões, isto nunca foi possível. Essa era a sua última chance. O curta é sua homenagem ao modernista e um olhar mais aprofundado em relação ao filme indica isto.

 

Cena 2: Em 24/6/2015, morre em acidente automobilístico o cantor Cristiano Araújo. Instantaneamente, uma série de fotos do seu corpo povoam as redes sociais. Nas insólitas imagens, tiradas momentos antes do velório, o sertanejo aparece em uma maca, ainda com marcas de ferimentos no rosto, e, depois, de terno. Segundo a Funerária responsável pelo translado do corpo, após exames no IML, Cristiano foi encaminhado para uma clínica de tanatopraxia, que prepara mortos para seus funerais. Em seguida, foi conduzido ao Palácio da Música, no Centro Cultural Oscar Niemeyer, em Goiânia. Uma das fotos foi publicada no Instagram de uma mulher chamada Fernanda Rezende. Na legenda, ela diz: “e aí chego em casa e vem meu pai todo chateado com sua cervejinha me contar: ‘quer ver ele? fui eu que o arrumei’. Agora a ficha caiu...impossível não ficar triste. Descanse em paz!”. O pai de Fernanda é Edson Rezende, funcionário da Clínica responsável pela arrumação do corpo do cantor para o funeral.

 

Dois funcionários da Clínica, que filmaram a preparação do corpo do cantor para o funeral, foram demitidos por justa causa e indiciados pela Polícia Civil de Goiás, com base no artigo 212 do Código Penal Brasileiro- vilipêndio a cadáver. No vídeo, que acabou circulando pelas redes sociais e por aplicativos de mensagem nesta quinta-feira, uma das funcionárias filma com o celular o colega preparando o corpo e até mesmo o processo de retirada dos órgãos. A morte de Cristiano Araújo – o cantor que ninguém conhecia, exceto milhões de fãs de música sertaneja – teve cobertura maior do que a tragédia envolvendo o político Eduardo Campos.

 

Sem adentrarmos ao plano comparativo da qualidade e relevância da obra por eles produzida, o certo é que nos quase 40 anos que separam a morte De Di Cavalcanti e Cristiano Araújo, assistimos a progressiva irrupção da civilização do espetáculo, que, dentre outros atributos, assume uma substituição de ideias e debates intelectuais pela mera publicidade, aparência e consumo de escândalos e sensacionalismos. O entretenimento vulgar e a banalização lúdica da cultura alcançam o desejo de bisbilhotar a intimidade alheia, mesmo que isso alcance o extremo de revelar o perverso e o macabro do compartilhamento do dissecar de um corpo morto, com a finalidade de fruição da intimidade alheia por um publico indiferente em relação a imoralidade e ávido por uma atitude passiva, aquilo que Marshall McLuhan chamava de “banho de imagens”, principalmente as que evocam catástrofes e inconscientemente amenizam bastante a vida das pessoas.

 

Como podemos aprender com Di Cavalcanti e Cristiano Araújo para a fixação de parâmetros objetivos de ponderação e aferição da licitude da captação da imagem de corpos mortos? A partir de breves indagações, sugerimos cinco critérios para afastar a discricionariedade judicial na ponderação entre imagem, honra e privacidade, de um lado, e, de outro, o direito da sociedade a informação sobre fatos verdadeiros de interesse público. Primeiro: o morto era uma pessoa notória? Sim, em ambos os casos. Segundo: em qual ambiente houve a captação? As imagens do corpo de Di Cavalcanti foram filmadas em espaço público - o MAM do Rio - e seu enterro também. Já as de Cristiano Araújo foram obtidas sigilosamente, em local reservado. Terceiro: qual era a finalidade da captação das imagens? Glauber Rocha nutria objetivos artísticos que jamais violentariam a honra de Di Cavalcanti, refletida em seus familiares. Em contrapartida, as imagens de Cristiano foram obtidas com o fútil propósito de disseminação do trágico, que encontra respaldo na curiosidade e frivolidade daqueles que se nutrem das paixões baixas do comum dos mortais pela desgraça alheia. Quarto: a exibição das imagens era necessária para a compreensão do fato ou da narrativa? Enquanto o documentário de Glauber necessariamente só faria sentido com as cenas do corpo devidamente coberto no velório e enterro, é inominável o abjeto sentimento derivado da captação de imagens do corpo mutilado de Cristiano Araújo (e de sua namorada por extensão). Quinto: Houve consentimento em vida daquela pessoa ou dos familiares após a morte? A negativa no caso de Cristiano Araújo é obvia. Quanto a Di Cavalcanti, sabemos que ele não produziu um testamento em que expressamente recomendasse a filmagem de seu funeral, mas o contrato verbal com Glauber envolvia uma permuta entre duas formas de arte: uma pintura e um filme, porém só a primeira havia sido entregue em vida...

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